O Sonho – M. J. Pereira


Nilsa deitou-se para dormir como nas demais noites. Como de costume, demorou a pegar no sono. Raramente sonhava, e dormia noites tranqüilas. Mas essa noite foi diferente.

***

O padeiro bateu a porta, como fazia todas as manhãs, para levar pão fresco a sua cliente. Tocou a campainha e ninguém atendeu. Olhou para dentro e viu na cozinha um copo quebrado. Empurrou a porta que rangeu e entrou na casa. O padeiro achou que algo deveria estar errado, pois Nilsa nunca deixava a porta destrancada, ele sabia que a garota sempre tomava muito cuidado e preservava ao extremo sua segurança. O silêncio reinava, a casa toda bagunçada: móveis e vidros quebrados, paredes ensangüentadas, objetos pelo chão. O padeiro não acreditava no que via. Por fora a casa estava intacta, mas por dentro era uma catástrofe total. O que se passou durante aquela noite para a casa estar daquela forma?

O padeiro desesperado ligou para as autoridades locais. Relatou ao policial o que viu quando chegou na casa para fazer sua entrega rotineira. Os policiais revistaram por tudo, não havia sinal de arrombamento ou algo que fosse forçado. Quem teria feito aquilo com certeza estudou muito o território. Foi um crime muito bem calculado:
sem digitais, sem provas, sem rastros, sem vestígios…

***

A lua refletia a janela sobre a cama, onde Nilsa encontrava-se completamente presa por emaranhados de fios que sentia, porém não podia ver. Fios finos e invisíveis que a apertavam contra seu leito, cortando sua pele e deixando marcas de sangue sobre o lençol. Ela lutava contra o que não podia ver, desesperadamente, sem poder vencê-los. O vento rangia ao redor, arranhando a janela. Seus gritos de socorro ninguém podia ouvir, pois eram mudos… de medo.

A cama balançava e de baixo dela saiam seres medonhos e horrendos que não sabia descrever. Eles saiam aos montes;, Nilsa distinguia rostos conhecidos entre as criaturas, que possuíam partes do corpo parecidas com as de animais. RondavamCirculavam a cama tão rapidamente , que a garota só via vultos. As criaturas riam, gritavam, derrubavam móveis, quebravam vidros, espalhavam seus objetos e tentavam a todo custo pegar a garota pelos braços e puxá-la para onde acabaram de sair; Nilsa lutava desesperadamente contra as criaturas para poder livrar-se delas. Fechou os olhos para evitar olhar para aqueles seres horrendos, na tentativa de livrar-se deles.

A muito custoA muito custo Nilsa levantou no seio da madrugada. Olhou em volta; tudo estava como quando deitara: a porta, a cama, os móveis, tudo em seu divido lugar, havia sido apenas um dos seus raros sonhos. Seria difícil pegar no sono novamente, ainda mais porque seus nervos estavam à flor da pele. Virou-se na cama por algum momento, mas não conseguia dormir novamente. Então levantou-se. Levantou para tomar um copo d’água quando ouviu ruídos próximos à cozinha: era pensou ser apenas o vento batendo a janela. Nas noites de inverno, isso era normal.

Enquanto ligava a torneira, olhou para fora e viu apenas que a luz do poste da frente queria se apagar. “Esses vândalos, não preservam mesmo a cidade”, pensava Nilsa ao levar o copo à boca. Ao degustar o sabor da água, daquela noite de pesadelo, sentiu-a corroer sua garganta. A água estranha, que acabara de beber, com gosto de podridão, possuía uma cor negra, com finas linhas que saiam da boca do copo e se enraizavam lentamente por seus dedos e percorriam suas mãos, tomando conta de seu corpo. A garota soltou o copo com impulso e saiu correndo ao som do quebrar do objeto no chão, debatia-se desesperadamente para impedir que aquela coisa estranha a envolvesse e dominasse completamente todo seu corpo.

Na tentativa angustiante de se livrar daquelas linhas negras que tomavam conta de seu corpo, rumou escada acima em direção ao banheiro. A água quente com certeza a livraria daquele monstro. Ligou o chuveiro e ao entrar na banheira encontrou um animal ao canto, preparado para atacar quem ficasse na sua frente. Um animal comum, indefeso e perigoso. Era uma galinha preta, que ao ver Nilsa em sua frente, começou a bicá-la no pé e arrancar sangue de sua pele fina que se machucara rapidamente. Seus ossos visíveis impediam-na de se mover, os finos fios e negros daquela água podre, começaramou a penetrar em suas veias e sugar seu sangue. Nilsa então arrastou-se para se livrar dos seres funestos que traziam lentamente sua morte.

Arrastou-se até a sala, onde havia um grande espelho. Ao olhar para ele via-se de pé, perfeita, como se nada tivesse acontecido. No entanto, as raízes negras a consumiam, a galinha preta feria-lhe todo o corpo. Virou-se e viu um homem vestido de preto, como a noite. Ela gritava por ajuda e o homem ria. “Morra, criança, morra!”.

Até onde o fantástico poderia confundir os sentidos? O que estava acontecendo ali não era real, não podia ser, era apenas um pesadelo horrível que parecia ser verdade. Nilsa queria acordar; precisava acordar para ter certeza que ao abrir os olhos tudo estaria bem. Mas estava acordada. Levantara da cama, tinha certeza disso, então o que aquelas coisas inexplicáveis faziam ali? Quem era aquele homem que aplaudia seu desespero, que vibrava com sua morte?

O homem sentou-se no sofá para ver a luta incansável de Nilsa contra os seres que tomavam conta de seu corpo. Nesse mesmo instante, enquanto o homem aplaudia o show que via de camarote, as janelas e as portas abriram-se e fechavam-se violentamente. Em apenas um estalar de dedos daquele homem tudo desaparecera: os finos fios negros, a galinha preta, as marcas da luta incansável. Aos poucos Nilsa começou a se recuperar. Ele então olhou profundamente nos olhos de Nilsa e murmurou: “Chega garotinha, cansei-me de seu espetáculo. Agora é minha vez”. Então se levantou e, e grudou Nilsa pelos cabelos e arrastou-a pela casa. Jogava-a contra a parede, agredia-a, possuía-a… Ela sabia que isso não era um sonho, senão não sangraria, não sentiria dor. Ele sugou de Nilsa tudo o que precisava, tudo o que queria, tudo o que mais desejava em uma mulher. Quando Nilsa não mais respondia a seus sentidos e todos eles tornaram-se involutários, aquele monstro que abusara dela levou-a novamente para sua cama, já livre de todas as criaturas que a feriram, tranqüilizando-a da noite desesperadora. Ela então fechou os olhos e o sol brilhou na janela do seu quarto.

***

Todos subiram a escada até o quarto de Nilsa. Lá estava ela, doce e gelada, sobre sua cama. Havia sido consumida por seu sonho. Na cabeceira da cama encontrava-se uma única prova de que o que se passou naquela noite foi bem mais que um crime. Era uma rosa vermelha, que sangrava nas pétalas, avisando que a noite ainda não terminou.

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